sexta-feira, 16 de novembro de 2007

CAPITULO VI - "OS CAVALOS DISPARARAM NAS PRADARIAS DO ESPAÇO”

O velho escritor paulista Afonso Schmidt, no livro “São Paulo dos Meus Amores”, tem uma crônica que começa assim: “Se os passarinhos cuidassem de linhagem e, além das árvores de rua, tivesse árvores genealógicas, o mais mofino pardal do Anhangabaú poderia brasonar de avós que vieram no My Flower, isto é, na imigração histórica de 1907”. No fim da crônica, o bom cronista, sempre falando dos frigilídios, escreveu, encerrando, estas observações: “Os pardais são alegres, comunicativos, brejeiros. Parece que andam pela rua como os outros moleques, catando pontas de cigarro. Lá vem um deles, saltitando, para mim. É um perfeito garoto. Vocês vão ver que ele anda pitando, escondido dos pais. Aposto em como vai me pedir fogo para o cigarro. E eu vou negar. Que diriam de mim as velhas beatas pardocas do meu bairro?"

O norte-americano James Baldwin, no seu “Giovani”, diz assim: “O tempo é coisa simples, é comum, é como água para um peixe”. O mineiro Haroldo Bruno, na novela infanto-juvenil, “O Misterioso Rapto de Flor-do-Sereno”, assim escreveu: “Vai-se que tinha vontade - as galinhas, os bodes, os tatus, os tamanduás – de puxar um dedo de prosa com Zé Grande”. O poeta Fernando Leal no poema “O Leão e Outros Animais”, escreveu os versos que se seguem: “Uma ovelha, uma cabra e uma novilha, trataram com um leão, fazer igual partilha. Da caça que apanhassem no sertão”. É famosíssima a fábula de La Fontaine.O Lobo e a Cegonha”. A Condessa de Ségur no mundialmente conhecido “Os Desastres de Sofia”, assim escreveu: “Sofia ia todas as manhãs ao galinheiro com a mãe. Lá existiam galinhas de diversas raças e muito bonitas. Mme de Réan havia mandado pôr uma galinha para chocar uns ovos, dos quais deveriam sair pintinhos maravilhosos”. A transcrição a seguir se encontra em “Os Três Mosqueteiros”, de Alexandre Dumas: “O que não prestava era o pangaré. Todo mundo se ria à passagem do jovem, não pelo cavaleiro, impecável de porte, mas pela cavalgadura, às vésperas da morte”. “No centro da mata virgem, olhou para cima maquinalmente; viu um enorme quatimundé, que o espiava da bifurcação de um galho, fazendo-lhe gaifonas com o longo focinho pontiagudo” é de Júlio Ribeiro, em “A Carne”. Eurico Santos deu a luz aos livros “Da Ema ao Beija-Flor”, “Pássaros do Brasil”, “Entre o Gambá e o Macaco” e “As Cobras Venenosas”, entre outros. No “O Pequeno Príncipe”, de Saint-Éxuperry, além da grandiosidade do velho pé de Baobá, da ganância do contador de estrelas: - “Três e dois são cinco. Cinco e sete, doze. Doze e três, quinze”, também chama atenção do leitor uma raposa e uma jibóia, em pleno deserto.

Marion-Zimmer Bradley no best-seller “As Brumas de Avalon”, assim começa a história: “Naquele ano, as tempestades de primavera haviam sido excepcionalmente violentas; noite e dia o rumor das ondas ressoava pelo castelo, impedindo seus habitantes de dormir, e até os cães uivavam dolorosamente”. Portugal teve um poeta, e por sinal um bom poeta, que se chamou Bulhões Pato. O trovador português, João de Deus, no livro “Campo de Flor”, tem um poema intitulado “A Águia e o Corvo”. O chileno Dom Pablo Neruda, no seu envelhecido “Canto General”, disse assim: “Os ilustres papagaios encheram as profundidades da folhagem com lingotes de ouro verde”. Ezra Pound, no cântico II do seu monumental “Os Cantos”, foi sintético: “Gaivotas, abrem as asas”. O paranaense Emílio de Menezes, numa tradução livre de “O Corvo” de Poe, saiu-se assim: “Abro a janela e vejo entrar, ruidosamente, Amplas asas batendo e ares de fidalguia. Um majestoso corvo altivo e irreverente, como arauto feral da noite erma e bravia.”

O excelente regionalista goiano, Léo Godoy Otero, dono de um estilo singular, abre “O Caminho das Boiadas”, com estes versos: “Casqueando os dois sujos em matungos”.

O poeta mauaense Moysés Amaro Dalva, no poema “Super Star”, incluído na antologia “10 Poetas em Busca de um Leitor”, publicada pelo Colégio Brasileiro de Poetas, em 1977, diz o seguinte: “Ficaram belas tuas mãos; No entanto / A bênção esperada como dantes /, Não pousam mais em tuas mãos cirurgiadas; / E o pão que partes nos salões gran-finos. / O pão que partes já não multiplicas; / Como na lenda do Deserto outrora; / Nem os peixinhos que de-baldes-agora; / Esmiuças nos faustos dos banquetes; / Guardam aquele sabor de alimento abençoado”. O poeta baiano, Pacífico Ribeiro, no belo livro “Sonetos Remanescentes”, publicou estes versos de incontida beleza: “Num pé de manacá, Judith ouvia/ uma pobre cigarra penitente, / cantando tanto, estridulamente,/ nas tardes mornas quando o sol morria”. O francês Louis Aragon no livro “Les Yeus d’Elsa” (Os Olhos de Elza) diz assim: “Outrora os cavalos iam devagar”. O poeta gaúcho, Oliveira Silveira, em “Banzo Saudade Negra”, diz: “Sobre a terra / que o preto lavrador / abandonou / comido por corvos / jaz o boi / morto e preto”. “Na minha terra, no bulir do mato. / A juriti suspira” – disse o nosso melancólico Casimiro de Abreu, nas suas “As Primaveras”. “As aves aquáticas foram para o poleiro mais cedo / os cavalos dispararam nas pradarias do espaço” – Aristides Theodoro, do livro “Poeminha Sem Realismo Para Ruth”. Milton, no “Paraíso Perdido”, assim escreveu: “O Leviatã, aquático gigante, / A maior das viventes criaturas: / Quando dorme, assemelha um promontório; / Quando nada, parece ilha boiando". "Nesse tempo, após o Advento, / pelo Natal, morta a estação, / Quando os lobos vivem de vento”. – São versos do francês François Villon, que nasceu em Paris em 1431, mesmo ano em que Joana d’Arc foi incinerada pelos britânicos. Villon viveu uma vida desregrada e promíscua, chegando mesmo a roubar e a ferir pra viver. Tendo mais tarde desaparecido de Paris, quando teve prisão decretada.

Fomos buscar estes versos em “Porto Inseguro”, do poeta Rossine Camargo Guarnieri: “O mar levou a vida que era um sopro / e os peixes comeram a carne”. Rodrigues de Abreu no “A Sala dos Passos Perdidos”, escreveu: “Tem o destino bom das borboletas, / das flores, das cigarras, dos poetas.../ Cantam numa ternura comovida”.

CAPITULO VII - “O BODE EXPIATÓRIO”

O inglês Charles Darwin no livro famoso “A Origem das Espécies”, teorizou: “Seria inútil separar os melhores touros e cruzá-los com as melhores vacas se a sua prole fosse deixada livre para acasalar-se com indivíduos de outros rebanhos”. A inglesa Ana Sewell intitulou o seu livro de “Azabache” (Autobiografia de um Cavalo). O romancista, Inácio de Loyola Brandão escreveu, no início de seu “Não Verás País Nenhum”, “os animais morrem”. O cearense Adolfo Caminha, autor de “A Normalista”, assim se expressou: “Nem um ruído na rua do Trilho, nem uma voz, nem um vôo pesado de um morcego: tudo silêncio, e uns restos de luar a extinguir-se esbatendo defronte nos telhados”. A romancista cearense Heloneida Studart publicou uma novelota valente que se chama “O Pardal é um Pássaro Azul”. O necrófilo poeta mineiro, Conde Belamorte, autor de três livros, decantando a morte e seus mistérios macabros, assim disse em “A Dança dos Espectros”: “Rodopiam fantasmas no meu cérebro! / Quando se me esvair a última essência. / Os necrófagos vermes que me espreitam. / Não terão abundância de matéria. / No macabro festim”. O paraibano Virginius da Gama e Melo (morto prematuramente), na ótima novela “Tempo de Vingança”, escreveu: “Os patos e os gansos, brancos, todos brancos e barulhentos, estavam descendo, pela estrada, para o açude. O cachorro espiava de longe. A mãe, a longa saia rodada, estava jogando milho para as galinhas, a urupema carregada. Os guinés esvoaçavam, caíam exatamente sobre os montes de aves mais compactos, onde mais caíra o milho”. O baiano Clóvis Amorim, em “O Alambique”, romance vivamente louvado por Jorge Amado, falou: “O cavalo de Bertoso galopava pelas estradas”. O norte-americano O. Henry, no seu conto “Natal no Rancho”, assim descreve uma cena: “...os convidados não conseguiram alcançar o assassino, que montara a cavalo muito antes dos vingadores do pobre vaqueiro”. O português Almeida Garrett, na novelota “Joaninha dos Olhos Verdes”, assim transmitiu o seu fascínio pela natureza: “Estava eu nestas meditações, começou um rouxinol a mais linda e desgarrada cantiga”.

O cubano Alejo Carpentier abre “O Reino Deste Mundo” desta forma: “Ti Noel escolheu sem vacilação aquele reprodutor grandalhão, de garupa redonda, bom para remontar as éguas que estavam parindo potros cada vez menores”. Ray Bradbury, na sua mais conhecida novela “Fahrenheit 451, disse: “O cão deu um passo, saindo do canil”. O ensaísta gaúcho Augusto Meyer escreveu dois ensaios com nomes de bichos no seu “A Forma Secreta” e “O Leão Morto e o Cão e o Rouxinol”. Tem um livro de Clarice Lispector (póstumo), que recebeu o título de “A Besta e a Fera”. O paraense Benedito Monteiro, no inovador “O Minossauro”, argumentou, com seu estilo abundoso: “Outros assim mordidos pela jaquiranabóia tinham morrido em cima do rastro. Ninguém, a não ser eu, ainda vivia escapado pra contar lambança. Veneno de Jaquiranabóia diz “que não tem cura”. O cubano lendário, Lezama Lima, no barroquíssimo “Paradiso”, no meio de uma das suas intermináveis dissertações, obtemperou: “Um ginete de besta negra levou a espada à face de um estudante que se atordoou e veio a cair debaixo do cavalo”. O poeta mauaense, J. Ramos, escreveu uma peça teatral que se chama “O Bode Expiatório”. O pernambucano Marcus Acioly tem estes versos grafados em “Nordestinado”: “A onça suçuarana / Que voa na fumaça / Do tiro errado nela”. De 1836 a 1841 o naturalista inglês George Gardner, viajando pelo Nordeste do Brasil, escreveu este trecho:... “viajando no nordeste do Brasil onde reina grande calor, sempre se dá descanso aos animais no meio do dia”. Outro naturalista, desta vez o alemão Carl Friedrich von Matius, que nos visitou entre 1817 e 1820, deixou estas frases nas impressões de viagem – “...um cidadão da Bahia, em uma viagem de mar para o Maranhão, havia naufragado e tinha visto a sua mulher afundar nas ondas, e a filha ser engolida por um tubarão”. O velho escritor cearense, Gustavo Barroso, no “Terra de Sol” (que está clamando por nova edição), fez estas colocações: “O cangaceiro, às vezes, veste de couro: perneiras estreitas, justas na perna, com uma ponta abotoada no bico longo da chinela; guarda-peito de couro de gato selvagem, de mourisco ou de onça sarapintada de negro em fundo amarelo e berrante”. A escritora inglesa, Elizabeth Goudge, no “A Estrela de Belém”, fez esta bela descrição: “Davi ia muito satisfeito sobre o camelo, e sua alegria fez com que se pusesse a tocar a sua flauta. Quando chegaram a Belém, seguindo sempre a estrela, os camelos se encaminharam para o bairro pobre da cidade".

O polonês Wladyslaw Stanislav no livro “Uma Lenda de Natal”, ironizou: “Os homens são ignorantes, e é por isso que são maus. É natural que os macacos se roubem uns aos outros, mas os homens devem auxiliar-se entre si”. O rio-grandense do norte, Umberto Peregrino, em “Desencontros”, registra no conto Pedro Cobra, este diálogo: -“Bestidade”, “João Jerônimo. Eu pego onça há dezenove anos. Estou prático nos ofícios. Nunca uma pintada fez mais do que me arranhar as mãos. Hoje em dia só não faço mesmo entrar nas furnas delas. Mas no campo enfrento qualquer uma sem sobrosso. Jogo areia nos olhos dela e ataco com os meus garfos”. O francês Frèdéric Mistral, Prêmio Nobel de 1904, no livro “Miréia”, nos ofereceu estes versos: “Grilos calaram nas noites/Mais de uma vez para escutá-lo; / Também os rouxinóis e pássaros noturnos”. O baiano Artur Salles, no poema Verão Morto, descreve: “Canta a cigarra. É o canto derradeiro, / triste, ferindo o céu crepuscular”. Utilizamos aqui a bela descrição do conto “A Volta dos Magos”, do ficcionista americano Manuel Komroff, que argumentou: “Os criados e os camelos dos Magos esperavam-nos nos poços. Rapazes e moças rondavam por ali, espantados com os curiosos tapetes das selas e com os ornamentos orientais dos arreios dos camelos ajoelhados”.

O conhecido romancista cearense, José de Alencar, abre o “Iracema” com estas palavras: “Verdes mares bravios de minha terra natal, onde canta a jandaia nas frondes da carnaubeira”. O satírico filósofo francês, Voltaire (1694-1778), no seu “Dicionário Filosófico”, escreveu o que se segue: “olha os pardais do teu jardim; contempla os teus pombos; repara no touro que levam para junto da bezerra, nesse ativo garanhão que dois palafreneiros conduzem ao pé da meiga égua que o espera e desenrola a cauda para o receber; vê como os seus olhos brilham; ouve os seus relinchos; contempla aqueles saltos, aqueles caracoleios todos, as orelhas espetadas, a boca que se abre em breves convulsões, as narinas arfantes, dilatadas, a respiração ofegante, as crinas erguidas que padanam, o imperioso movimento, com que ele se lança à conquista do objeto que a natureza lhe destinou”.

E assim, terminamos este capítulo com os belos versos de Drumond de Andrade: “Um cachorro vai devagar. / Um burro vai devagar. / Devagar...as janelas olham. / Eta vida besta, meu Deus”. Mais adiante, no mesmo poema “Fuga”, o poeta itabirano tem uns versos assim: “A vaia amarela dos papagaios/rompe o silêncio da despedida”.

CAPITULO VIII - “O PEIXE-BOI”

“E disse Deus: Produza as águas enxames de seres viventes, e voem as aves acima da terra, no firmamento do céu. Assim Deus criou as grandes criaturas do mar, e todos os seres viventes que se arrastam, os quais povoaram as águas, conforme as suas espécies, e todas as aves que voam, conforme a sua espécie”. Gênesis – da Bíblia. Caio Prado Júnior, na História Econômica do Brasil, descreve o que se segue: “o gado chega naturalmente estropiado a seu destino. A carne que produz, além de pouca, é de má qualidade”. O mineiro Murilo Mendes, no “Mundo Enigma” (1942), escreveu assim, no Poema Barroco, no seu linguajar hermético: “Os cavalos da aurora derrubando pianos avançam furiosamente pelas portas da noite”. Nas Obras Completas do crítico Agrippino Grieco, aquele que se riu à bandeira despregada da imbecilidade dos homens, se encontra um título com nome de animais: “Gralhas &Pavões”. O baiano Wilson Lins, no livro “Responso das Almas”, em certo ponto de um diálogo, fez um velho tabaréu dizer estas palavras: - “Era uma cobra enorme, do tamanho de um vapor, e que tinha quatro asas, cada qual de dois metros de comprimento”. O inventivo poeta cearense, Pedro Henrique Saraiva Leão, carrega bicho até no nome. O melancólico Luís Nicolau Fagundes Varela, em “Ave Maria”, escreveu esta quadra de beleza rara: “A noite desce, lenta e triste / Cobrem as sombras a serrania, / Calam-se as aves, choram os ventos, / Dizem os gênios: Ave Maria!” Outro poeta, o mineiro inconfidente, Silva Alvarenga, escreveu: “Quando puro se derrama / Vivo ardor no ameno prado, / Pelas brechas foge o gado / Verde rama a procurar”.

O paulista Paulo Prado, no volume seis, das suas Memórias, intitulado “Ofício de Trevas”, em uma legenda onde mostra os animais de sua estimação, diz: “A família zoológica era grande: quatro gatos, três cães, uma jaguatirica, um caititu, um ganso, dois jabutis e cerca de sessenta sapos. Toda comunidade, vivendo absolutamente unida e solidária...” O maranhense acadêmico, Josué Montello, publicou a novela “Antes que os Pássaros Acordem”. O português Miguel Torga, no Diário de 14 de setembro de 1975, ditou: “O Barroso coberto de gado. Os animais, diversos bichos a granel nos mesmos pastos, nos mesmos eitos, nos mesmos currais. Bois e galinhas no mais cordial convívio”. O inglês Percy Shelley (1795-1822) narrou no livro “Ave Viúva Pousada” o que se segue: “Ave viúva pousada / Chorando por seu amado / Sobre um ramo relegado”. O Prêmio Nobel alemão, Paul Heyse, escreveu em 1879 a “Salamandra”. O escritor moçambicano, Luiz Bernardo Honwana, intitulou um livro de “Nós Matamos o Cão Tinhoso. Luandino Vieira, português radicado na África negra, escreveu assim: “Os pardais jásaltam, pardal não sabe andar, apanhar as jingunas de encher os papos”. Eugénia Neto, novelista africana, editou “... E nas Florestas os Bichos Falam”. Outro africano, Maja Mwangi, produziu um romance intitulado “Carcaça Para Cães”.

O escritor português Júlio Dantas (1816-1962) escreveu em 1920 “Abelhas Douradas”. Outro português, Gomes Francisco Amorim, que viveu no Brasil, onde se alfabetizou, editou “O Fígado de Tigres”; João José Graves fez vir à tona “Noite de Cães”. Helder Herberto de Oliveira publicou em Lisboa, em 1997, o romance “Cobra”. Vitorino Nemésio batizou seu livro de “O Cavalo Encantado”. Oliveira Soares publicou em 1970 crônicas intituladas “As Andorinhas Não Tem Restaurante”. O Sueco Carl Spitteler tem um livro intitulado “Borboletas”. “O Pintarouxo” é título de um conto de Selma Lagerlof. O grande contista paraense Ingles de Souza (1853-1918), que pode ser incluído, sem favor algum, entre os maiores contistas deste país, em todos os tempos, narrou o que se segue, no conto regionalista Acauã: “Desde as sete horas da tarde, só se ouve na povoação o pio agourento do murucututu ou o lúgubre uivar de algum cão vagabundo, apostando queixume com as águas múrmuras do rio”. E mais adiante, no mesmo conto, o imenso narrador nortista ainda diz: “Aquela voz era a voz da cobra grande, da coloçal surucuriju, que reside no fundo dos rios e dos lagos. Eram os lamentos do monstro em laboroso parto”. Dalton Trevisan intitulou um dos seus livros de “Cemitério de Elefante”. Já houve quem dissesse, se referindo ao escritor B. Traven, que ele foi “um daqueles gênios esquecidos da literatura americana do século XX”. Esse sublime narrador, diz assim, no livro “O Visitante e Outras Histórias”: “Pássaros silvestres perseguiam as abelhas todo o tempo, apanhando-as quando elas entravam nas colméias ou delas saiam”. O irônico François Rabelais, um dos risos mais mordazes em todos os tempos, intitulou um dos pequenos capítulos de “O Gargântua”. “De Como Gargântua foi enviado a Paris na grande égua que desfiou as Moscas Bovinas. O primeiro capítulo de “O Meu Nome é Aram”, de William Saroyan, chama-se “O Varão do Maravilhoso Cavalo Branco”. A norte-americana Daphine do Maurier, que já foi muito lida e badalada no passado, assim se expressou em “A Estalagem Maldita”: “O que mais tinha sentido fora a morte da velha jumenta que as servira durante vinte anos e sobre cujas costelas largas e vigorosas Mary pela primeira vez esticou suas perninhas de menina”.

O filósofo Rodolfo O. Konder abre a sua novela sombria, “Comando das Trevas”, dizendo: “Os ágeis cavalos prateados sobem pelo flanco menos violento da serra, acompanhados de uns poucos homens desfigurados pela noite”. Luís Henrique Dias Tavares, autor de História da Bahia, diz no seu compêndio: “Os mais primitivos engenhos de moagem da Bahia eram de dois cilindros ou moendas horizontais, justapostas, geralmente, de madeiras, movidas a água ou por juntas de bois”. Edmundo Muniz em “A Guerra Social de Canudos”, descreveu: “Todos os moradores de Canudos trabalhavam, homens e mulheres, cuidando da plantação, do gado e fabricação artesanal dos utensílios mais necessários”. Theodoro Sampaio, engenheiro, que foi também grande escritor, no livro indispensável a todo brasileiro interessado em melhor conhecer o seu país, “O Tupi na Geografia Nacional”, traduzindo nomes de alguns pássaros da nossa fauna para o português do Brasil, disse: “Chipiú” Ave Frigilla, que é o nosso tico-tico. Churis A ema, uma das denominações que esta ave tem no guarani, Mato Grosso, Paraguai; Curicas, o papagaio todo verde”.

CAPITULO IX - “CAVALOS MARINHOS”

O catarinense Helmut Wiesse abre o seu livro, Novo Manual de Apicultura, assim: “As abelhas existem em nosso planeta a milhares de anos antes do homem, surgindo junto com as primeiras plantas e insetos”. O paranaense Eurico Branco Ribeiro, na sua “Água da Esperança”, diz o seguinte: “Até que seria poético o seu fim, entre o trinado dos pássaros, o bulício das folhas e o canto da cascata”. Fomos ao pensamento seguinte, na abertura do livro “O Tesouro de Siloé”, da escritora inglêsa, Mary Evans: “Os cães dos pastores latiam, furiosamente ao desaparecerem aqueles tipos estranhos nos outeiros escuros contra a luz do sol”. James Leo Herlihy no seu livro “Perdidos na Noite”, em um diálogo, colocou estas frases na boca do seu personagem: “Apresse-se, Baby – disse ela com viva irritação, dirigindo-se ao cachorro. – Faça o seu servicinho, faça, por amor da mamãe. Vamos, faça o seu cocozinho”. J. J. Van Tschudi, viajante suíço, que esteve no Brasil em 1857 e permaneceu dois anos entre nós, estudando a nossa flora e fauna, escreveu o que se segue, no livro “Viagem às Províncias do Rio de Janeiro e São Paulo”: “No dia seguinte, comprei uma boa mula de sela, aluguei as bestas de carga que eram necessárias”. O grande romancista baiano, Adonias Filho , no romance “Corpo Vivo”, descreve uma cena que inicia assim: “Rodeei a casa, em busca dos animais, nos fundos. Sabendo que a cangalha e os panacus estavam na barcaça diante dos cochos”. O dinamarquês Prêmio Nobel de Literatura de 1994, Johannes V. Jansen, escreveu uma novela intitulada “Metamorfose dos Animais”. O russo Ivan Bunn, em 1931, publicou um romance intitulado “À Sombra do Pássaro”. O renomado poeta italiano, Giosuè Carducci, escreveu estes três versos de incontida beleza: “Viu-o avançar com haste, / E como águia do Olimpo ou pomba do Ato? Entre os raios do céu, punhos armados”. O poeta sueco Erik Axel Karlfeldt, Prêmio Nobel de 1931, é autor destes versos: “A serpente se arrasta sobre o ventre e só come terra”.

O inglês John Galsworthy publicou uma novela da saga dos Forsytes, intitulada “O Macaco Branco”. O poeta grego, Giorgios Seferis, produziu um livro intitulado “O Tordo” (Gênero de pássaro da família dos turdidas, de plumagem de fundo branco-sujo. Com manchas escuras” - Dicionário Aurélio). O frânces Anatole France escreveu “L‘Ile des Pingoins”( A Ilha dos Pinguins). “O Rastro do Gavião” é uma peça do escritor norte-americano, Sinclair Lewis, de 1915. O romancista católico, François Mauriac, que deu um Prêmio Nobel ao seu país de origem, a França, em 1952, publicou um romance intitulado “O Sagüi”. O inglês Aldous Huxley criou uma alegoria intitulada “Os Cisnes Morrem”. Iyall Watson batizou o seu livro de “O Macaco Unívoro”. A famosa Madame Delly, que preenchera momentos de leitura inesquecíveis de nossas mães e avós, denominou uma de suas novelotas de “A Casa dos Rouxinóis”. O sertanista Agenor de Oliveira Freitas, no livro “Ouro e Paixão nos Rios Amazônicos”, diz o seguinte: “Sentindo-se preso pela poderosa mão do índio, percebendo haver perdido o traiçoeiro golpe, a serpente mudou de tática. Enroscou-se toda para tolher e dominar pretensa vítima nos seus elásticos anéis”. O romeno Zaharia Stanco, no livro “Um Pedaço de Terra”, diz: “Outros bebem de tal forma que acabam lançando seus gorros aos cães”. O novelista peruano, Jorge W. Abalos, no seu livro “Shunko”, diz assim: “As cabras não parecem ressentir-se da escassez do pasto, e vão suportando a má época”. Jerônimo Monteiro, no romance “O Ouro de Manoa”, assim se expressou: “Os Homens e animais, estes depois de aliviados das suas cargas, deixaram-se cair à sombra de vários monstros vegetais e ficaram por muito tempo em delicioso repouso”.

O paulista Léo Vaz no seu livro “O Misterioso Caso de Ritinha”, assim pronunciou: “De regresso, à noitinha , ao passo da Marreca , enquanto na baixada os vaga-lumes , à beira do caminho, piscavam na grama”. O romancista norte-americano Waschington Irving escrevendo “O Cavaleiro Sem Cabeça”, ditou: “O único sequaz doméstico de Ripe era Wolf, seu cão, também tão oprimido quanto o dono”. A riograndense-do-sul, Heloisa A. Nascimento, abre o seu livro “O Manuscrito” assim: “Um bando de gaivotas levantou da crista das ondas aos gritos dos rudes homens do mar”. “No instante de um relâmpago vemos um cachorro, uma carruagem, uma casa, pela primeira vez” – frases de J. Cocteua, citadas por Clément Rosset em “Anti Natureza”. O famoso escritor paulista, Malba Tahan, no seu livro de contos, Minha Vida Querida , diz assim: “... montei a cavalo e fugi, a galope, daquele exaltado muçulmano!” O belga Maurice Maeterlinck escreveu “O Pássaro Azul” e ganhou o Prêmio Nobel de Literatura em 1911. O inglês Bernard Shaw publicou, em 1916, “Androcles e o Leão” e recebeu o Prêmio Nobel de Literatura, em 1925. O romancista Antonio Callado, no livro “Retrato de Portinari”, falando sobre a mãe do pintor de Brodowski, escreveu assim: “Era uma mulher fabulosa. Parecia um condottiere. Saía no seu carrinho puxado por um cavalo preto e nas saias tinha bolsos de um metro de comprimento, cheios de níqueis e de balas para as crianças”. O folclorista e historiador Edison Carneiro, no seu livro “A Conquista da Amazônia”, escreveu o que se segue: “O boi é sempre “a menina dos olhos”, “o animal de estimação” do amo, do vaqueiro e dos seus comparsas, “o lindo boi” que recorda uma fase econômica anterior à corrida da borracha”. O antropólogo Artur Ramos, no “As Culturas Negras no Novo Mundo”, descrevendo os rituais negros, assim se expressou: “O sacrifício de animais – galos, carneiros, etc. – exige um cerimonial completo”. O folclorista baiano Hildegardes Viana , no seu livro “A Cozinha Baiana – Seu Folclore – Suas Receitas”, ensinando fazer prato de abóbora com carne, disse assim: “Cozinha-se a carne de peito de vaca como se fosse para guizado. Adiciona-se abóbora cortada em pedaços mais ou menos graúdos. Deixa-se engrossar o caldo. Come-se com farinha ou arroz”(Delícia!).

O poeta Irineu Volpato, na sua linguagem vigorosa e até de certo ponto inovadora, diz no seu “Paulistarum Terra Mater”, o que se segue: “Aqui eram matas todinhas vadias / vadios os espaços / dum povo vadio / perdidos em verde campos. / Uns rios de peixes / as aves nos galhos”. O imenso romancista cearense, José Alcides Pinto, autor de mais de 50 romances, acaba de lançar a sua “Trilogia da Maldição”, pela Topbooks / Universidade de Mogi das Cruzes, contendo os seguintes romances: O Dragão”, “Os Verdes Abutres da Colina” e “João Pinto de Maria – Biografia de um Louco”, diz assim, finalizando um deslumbrante capítulo de “O Dragão”: “A mata era como um cemitério / As árvores caíam, mal se lhes tocavam. No chão, cadáveres de gaviões mortos. As penas ainda incrustradas no corpo cinzento”.

CAPITULO X - "TREZENTAS ONÇAS”

O filósofo inglês Bertrand Russel diz o seguinte em “O Casamento e a Moral”, referindo-se à impureza do corpo dos católicos do tempo de Santa Paula: “Os piolhos eram chamados pérolas de Deus, e andar coberto deles era marca indispensável de santo varão”. O gaucho Simões Lopes Neto intitulou um conto de “Trezentas Onças”. Henrik Sienkiewicz, escritor polonês, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura em 1905, fez com que um personagem afirmasse o que se segue, no seu mundialmente conhecido “Quo Vadis?”: “Casarás Vitélio com o Nilo, para que dessa União nasçam hipopótamos: dará a Tigelino o deserto onde ele será o rei dos chacais...” Nehem Adas, na sua “Geografia da América”, vociferou: “A Inglaterra, ao contrário de Portugal e Espanha, não possuía escassez de mão-de-obra. Apresentava uma excedente população, em várias áreas de seu território, da agricultura pela criação de ovelhas com a finalidade de abastecer a indústria têxtil”. O velho Conan Doyle, em “O Círculo Vermelho e Outras Aventuras de Sherlock Holmes”, escreveu: “O Cão reflete a vida da família. Quem já viu um cão espevitado numa família sorumbática, ou um cão tristonho numa família jovial? Gente rabujenta tem cães rosnadores, gente perigosa tem cães perigosos”. O historiador baiano, Luíz Viana Filho, no seu nutrido livro “O Negro na Bahia”, disse: “Também na criação de gado não prosperou o trabalho do negro escravo. O fato é fácil de explicar. Assentava principalmente, em regiões de ordem econômica. A criação, não suportava as despesas exigidas dos donos das extensas sesmarias”. O escritor Guilherme Figueiredo, no livro “Comidas, Meu Santo”, intitulou um capítulo de “Cobras e lagartos”. “Não há dúvida de que existe um cheiro corporal característico de cada indivíduo. Embora a maioria de nós não esteja conscientes dele na maior parte das vezes, sua presença pode ser facilmente demonstrada pela facilidade com que um cão é capaz de seguir um rastro”: esta falação se encontra no livro “As Diferenças Raciais”, do professor Otta Klineberg, da Universidade de Columbia. Thales de Azevedo, no clássico “Povoamento da Cidade do Salvador”, assim verbaliza: “A praga da formiga é a mais antiga e tenaz inimiga da lavoura no Brasil. Mal chegara à Bahia, Nóbrega já mandava contar na Europa as devastações que faziam as formigas”.

O mineiro Aires da Mata Machado Filho, no livro, “O Negro e o Garimpo em Minas Gerais”, falando do totemismo dos negros, assim descreve: “Os Bananeca” têm uma cerimônia especial, por ocasião das colheitas, quando prestam um verdadeiro culto a um boi a quem chamam de Geroa”. O escritor gaúcho, Josué Guimarães, intitulou um de seus livros de “O Gato no Escuro”. O pintor e escritor Carybé, nas “As Sete Portas da Bahia”, assim falou: “Os bois, pacíficos e sonâmbulos, guiados como por encanto por uma liturgia de aboio, responsos de despedida chegam entre ladridos dos cães aos currais que circundam o sombrio edifício do matadouro”. O ex-presidente José Sarney batizou um de seus livros de “Marimbondo de Fogo”. Otto Lara Resende no seu bem estruturado “As Pompas do Mundo” assim descreve a ambiência rural mineira: “E passava pelos gordos tempos da lavoura farta a perder de vista. De toda a bem nutrida criação: novilhas, reses, muares, marroazes, sedosos cavalos de sela e tropa”. Pedro Nava intitulou uma de suas memórias de “Galo das Trevas”. A escritora carioca, Patrícia Bens, intitulou um livro de contos, de “Assassinato dos Pombos”. Leiamos o que disse o sarcástico Aggripino Grieco, no seu “Machado de Assis”, onde nem sempre é simpático ao romancista do Cosme Velho: - “Quanto à pilhéria que lhe atribui Leôncio Correia, dizem a um garçom: a propósito da mosca na sopa, gosto de mosca... mas ... separadamente”. O romancista Stephen Gilbert, na novela macabra, “Vingança Diabólica”, com sua obsessão por ratos, diz assim: “Depois de algum tempo, todos os ratos de cauda peluda tinham sido alimentados”.

O poeta inglês, John Keats, assim se expressou no poema “La Belle Dame Sans Merci”: “Que te pode doer, pobre diabo / Só em desalento vagando; / Os cíperos vêm secos desde o lago / E nenhum pássaro cantando”. O poeta H. W. Longfellow tem um verso assim: “É o gemido das Raposas e Corvos, ou o poderoso Bocemote”. “Um cão da família Montecchio bole-me os nervos” – disse Shakespeare em “Romeu e Julieta”. O angolano poeta Agostinho Neto escreveu estes versos, no seu livro famoso “Sagrada Esperança”: “ A vida a ti devo / À mesma dedicação ao mesmo amor / com que me salvaste do abraço / da jibóia”.

Oswaldo Orico, no auge da polêmica com R. Magalhães Júnior, que havia publicado “Rui o Homem e o Mito”, uma diatribe infernal contra o águia de Haia. Fez vir à luz do dia, “Um piolho na asa da Águia”, que, diga-se de passagem, não possui a argumentação da obra do autor de “Canção Dentro do Pão”.

Botando um ponto final nesta série de considerações sobre bichos na literatura mundial, onde consultei dezenas de livros e autores do mundo todo, e que provocou alguns comentários, uns contra, outros a favor, quando foram publicados em capítulos na “Voz de Mauá”, chamamos alguns dos maiores dicionaristas do país, a fim de darem os seus pareceres valiosos sobre a palavra bicho e seus derivados. Vejamos o que nos diz o Novo Dicionário Aurélio: “Bicho. (do lat. Bestiu.) S.M.I. Qualquer dos animais terrestres.6. Bibliol, Qualquer inseto bibliófago.Brasi.Pop. Designação comum a alguns tipos de insetos, como o cupim, a traça e outros, que introduzindo-se na madeira, nos tecidos, no papel, nas frutas, nos cereais, etc”. O Dicionário de Verbos e Regimes de Francisco Fernandes, conjugando o verbo Bichar, assim procedeu: “Bichar Intransitivo-Encher-se de bichos: “O feijão bichou todo. Bicharam as frutas”. O Dicionário Mor da Língua Português, com supervisão do professor Cândido de Oliveira, falando da “bicharada”, diz: “bicharada,s.f.- Grande quantidade de bichos”. O Dicionário da Língua Portuguêsa de Cândido de Figueiredo, falando de bichento, assim se expressa: “Bichento, adj.Bras. Quem tem bichos nos pés. Cambaio: “o diabo do macaco bichento, em vez de me acompanhar, pôs-se com dengues”. – Coelho Neto, Sertão, O Dicionário Etymológico, Prosódico e Orthográphico da Língua Portugueza por J.T.da Silva Bastos – Lisboa, (1928), diz: “Bicharia (xa-ri), s.f.multidão de bichos; (pop.) poviléu; (fam.) piolho. (De bicho).

“OS BICHOS NA LITERATURA MUNDIAL” POR IRACEMA M. RÉGIS

“OS BICHOS NA LITERATURA MUNDIAL”
Iracema M. Régis (*)

Os Bichos na Literatura Mundial”-, de autoria do jornalista e crítico literário, Aristides Theodoro. Sem modéstia à parte fui a primeira leitora a sentir a beleza, a enxergar o inusitado, o amplo trabalho de pesquisa e pôr que não dizer: o banho de erudição e informações, que vieram, quais sementes transportadas pelo vento, nas patas desses Bichos do Sr. Aristides Theodoro.

O segundo leitor, que acredito ter visto tudo isso e talvez mais, incentivado o autor a tornar pública essa coleção de bichinhos, foi , nada mais, nada menos, do que o poeta e crítico literário, Dimas Macedo – Bacharel e Mestre em Direito, Professor da Faculdade de Direito da UFC e Procurador do Estado do Ceará, dono de uma respeitadíssima obra literária, da qual destacamos: “Ossos do Ofício”/1992, “Leitura e Conjuntura”/1995, “Tempo e Antítese”/1997, “A Obra Literária de José Alcides Pinto”/2001 ( crítica literária) e “Estrela de Pedra”/1994, “Liturgia do Caos”/1996, “A Distância de Todas as Coisas”/2001-3a ed. (poemas).

De tanto ler, revisar e acompanhar os escritos de Aristides Theodoro, o que não serve de motivos para tecer elogios ou encontrar qualidades infundadas, posso no mínimo constatar e afirmar que ele chegou a uma maneira própria, gostosa e bem particular, de dizer as coisas . Se assim não fosse “Os Bichos na Literatura Mundial”, pôr tratar-se de um tema único e capítulo repetitivos, a sua leitura poderia tornar-se chata e cansativa. O que não acontece, pôr vários motivos: no decorrer da leitura vai aparecendo, sobrepondo-se, uma série de citações, títulos, frases e versos lapidares, que nos enriquecem, nos enchem a alma e nos levam às lágrimas, como estes versos do imenso baiano Castro Alves – “A juriti do taquaral no ramo, povoa soluçando a solidão”.

Por outro lado, as inúmeras citações feitas, pôr um sem número de escritores, nos remetem à pureza, à singeleza dos animais, à sua fiel amizade ao bicho homem; é palpável o caráter de humanismo emprestado pela Literatura aos bichos, tratando-os como gente, colocando como personagens centrais, quando menos, como figura de destaque nas suas estórias.

Em determinado momento do livro uma citação fala da semelhança entre o animal e o seu dono – por exemplo, gente nervosa e agressiva cria bichos agressivos; pessoas dóceis possuem animais dóceis. Então, eu que não sou dada a cães e gatos, lembrei-me de que uma vez perdi-me de amor pela cachorrinha Liuba (que em russo quer dizer querida): ela é a figura do dono – comportada, discreta, muito na sua, observadora, prestativa e ao mesmo tempo receptiva, quando acarinhada.

Poderia continuar mostrando mais aspectos positivos dessa obra, mas como tudo tem dois lados, houve também quem não gostasse – segundo o autor a pessoa expressou-se da seguinte forma:

- “Aristides, você saiu da estaca zero, para chegar a lugar nenhum”. Respeito o gosto, mas considero tal leitor mais animalesco do que todos esses Bichos reunidos aqui em dez capítulos, que sorvo com imenso prazer, pôr me passarem uma grande lição de humanidade.

(*) Iracema M. Régis

(Escritora e resenhista literária)

DADOS BIOGRÁFICOS

Aristides Theodoro nasceu em Utinga – Bahia, em 27 / 11 / 37. Milita na imprensa há vários anos. Participou em mais de uma dezena de antologias literárias em prosa e verso. É resenhista literário e publicou os seguintes livros: Dandaluanda (poesia), 1982; O Poeta Passeia Por São Paulo num Sábado à Tarde, 1991; Poeminha Sem Realismo Para Ruth, 1993; Não Contribuirei Com um só Óbolo para a Construção do Novo Mundo, 2002; Como Preparar Um Diabo Velho em Forno Brando, 1993 (ensaios Literários) em parceria com Iracema M. Régis e Estórias de Curiapeba (contos regionalistas). Escreve e publica um Diário no Jornal a Voz de Mauá, desde 1999. Tem inéditos “Novas Estórias de Curiapeba” e “Manifestações Literárias em Mauá – O Colégio Brasileiro de Poetas, Seus Fundadores, Sócios e Outros Escritores da Cidade”.


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